Costumo dizer que os holandeses são o povo que nunca se desvia. Isto tem um significado simultaneamente simbólico e literal. São um povo incapaz de se desviar de uma regra ou de se adaptar, conforme a situação, mantendo-se teimosamente firmes na sua posição, mesmo que tudo indique que a devam mudar, mesmo fisicamente.
Por exemplo, no outro dia, depois de ter caído, e enquanto me dirigia a um médico de serviço a contorcer-me de dores, de repente a ciclovia de dois sentidos em que seguia tornou-se sentido único sem que me tivesse apercebido, e dou comigo a ir em contra-mão sem querer. Dado que era separada da estrada, precisava de andar mais uns metros até poder atravessar para o outro lado. Com espaço suficiente para duas bicicletas passarem, pensei que conseguiria rapidamente chegar à zona de travessia sem problemas, até que uma velhota resolveu ultrapassar, ficando de frente para mim. Ora, com uns 30 metros de separação ainda, pensei que desistisse da ultrapassagem vendo-me ali sem ter para onde ir, mas não, continuou, comigo parada, até chocar na minha roda da frente. E nessa altura começou a barafustar, provavelmente a desejar-me cancros e sífilis e a peste negra, que é como os holandeses insultam, como se, surpresa, não me tivesse visto e eu tivesse aterrado ali de repente, ou esperasse que, sei lá, como eu estava em contra-mão e não devia estar, me tivesse atirado para o canteiro ajardinado ao meu lado para que passasse. Naquela cabeça, regras são regras, e eu não devia estar ali, pelo que devia continuar nem que me passasse por cima, em vez de pensar que talvez fosse boa ideia esperar mais 30 segundos antes de ultrapassar, deixando-me passar e chegar à zona de travessia.
Da mesma forma, todos os dias deparo com uma situação peculiar. No caminho de casa para o trabalho, logo à saída da minha rua, tenho um cruzamento lixado, pelo que geralmente prefiro atravessar numa zona com melhor visibilidade numa passadeira. Regra geral, em ciclovias que atravessam estradas, os ciclistas têm prioridade, tal como têm os peões nas passadeiras, e os carros param mesmo. No entanto, se quando vou a pé todos os carros param, pelo contrário, estando de bicicleta, os carros não param para eu atravessar. E esta é a parte cómica: isto acontece se estiver parada com uma perna para cada lado do quadro, porque aí sou ciclista, mas no entanto já param se eu tiver as duas pernas para o mesmo lado, porque aí já sou uma peã a levar a bicicleta pela mão. E são pequenas coisas como estas que tão bem retratam este povo, mostrando que a tão afamada tolerância não passa mesmo de um mito.